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Moderno é tradição - O choro mestiço, o bandolim brasileiro e...

Rafael Ferrari      segunda-feira, 3 de outubro de 2016

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Tocando Bandolim

 

...a eterna cara feia dos conservadores para as novas gerações.

 

O título deste artigo pode parecer polêmico, mas não é! A única razão é chamar mesmo a atenção, principalmente daqueles que a internet apelidou de “haters” ou em bom português: os odiadores! Sim, porque com a liberdade que a internet proporcionou à todos, muita gente tem usado esta incrível ferramenta para odiar, xingar, vociferar suas frustrações e pessimismo em cima de pessoas que postam, produzem, falar, mostram conteúdos que expressam sua arte, trabalho, modo de pensar, etc...

 

É certo que isso sempre existiu no mundo pré-internet, porém, sem a mesma proporção pois é muito mais difícil ser um “hater” estando cara-a-cara com o seu alvo, do que pela internet! Como a gente diz no Rio Grande do Sul: “Respeito é bom e conserva os dentes.”

 

Mas, como eu disse antes, minha ideia é chamar a atenção de todos, sejam apaixonados como eu, sejam os “haters”, sejam os “modernosos” ou os mais tradicionalistas – e olha que de tradicionalismo eu entendo! Eu sou do Rio Grande do Sul, TchÊ!! – para uma reflexão acerca do choro, nosso gênero pai da música brasileira, tão adorado, defendido e tocado mundo a fora.

 

O choro, eu diria, é um gênero musical acima de tudo, elegante! Por que transita do gueto aos salões, com a mesma leveza, sincopado e beleza com os quais atravessou quase 200 anos de vida, sem nunca perder sua essência. E não estamos falando aqui de mídia, de imprensa, de rádio e televisão! Estamos falando dos fatos, do que o choro e o bandolim brasileiro representam hoje para a mundial. O choro, Jacob do Bandolim, Hamilton de Holanda, Luperce Miranda, Ronaldo do Bandolim, Izaias Bueno, Joel Nascimento, Jorge Cardoso, Danilo Brito e tantos outros músicos de outros instrumentos, mas chorões, são ovacionados e respeitados lá fora, por sua música, pela essência brasileira que carregam, pela paixão por suas raízes brasileiras, e não pelo seu estilo tradicional ou contemporâneo! Isso não é motivo de pré-conceito lá fora, pelo que vejo! Haja visto que quando participei do XI Festival Mandolines de Lunel na França em 2014, um dos maiores festivais de bandolim do mundo, eu era o único brasileiro em meio a norte-americanos, italianos, alemães, franceses, etc., e eu não fui lá nem pra tocar, nem pra ensinar choro, nos moldes tradicionais. Eu fui lá pra ensinar o meu choro, o que tem o meu sotaque: a milonga, o chamamé e o vanerão!

 

Roda de Choro, Abel Ferreira, Joel Nascimento, Waldir 7 Cordas, Zé da Velha

Roda de choro nos anos 70 no Rio de Janeiro. Entre os músicos: Joel Nascimento (bandolim), Zé da Velha (trombone), Waldir Silva (7 cordas), Abel Ferreira (clarinete)

 

E diferentemente do que vocês possam pensar, os bandolinistas – não só os que estavam para aprender e participar como espectadores, mas também os artistas que lá estavam – adoraram essa surpresa, essa nova descoberta do Brasil. É claro que tudo isso foi acompanhado nas rodas e nos bastidores por muito choro, Jacob, Pixinguinha, etc. Mas quando mostrei a minha música tradicionalista com ares de choro e contemporaneidade, todos ficaram encantados! 

 

E por que eu fiz este parêntese? Porque aqui no Brasil, na terra do choro, vejo muitas vezes aquela torcida de bigode pra tudo que não seja pura e exatamente naquele formato consagrado por Jacob, Meira, Dino, Canhoto... E quando vejo isso acontecer, eu simplesmente não entendo mais nada! Porque os músicos mais tradicionais, alguns mais antigos, outros mais jovens, parecem não entender que o choro não é um gênero tradicional, do ponto de vista estrutural, formal, melódico, harmônico e principalmente rítmico. Sim, não é! E me parece que esse bigode torcido por tudo que é novidade e discursos do tipo:

 

“Não é choro autêntico!”

“Não é um chorão de verdade!”

“Não toca choro, toca jazz!”

“Fica misturando coisas que não tem nada a ver com choro!”

“Esses ritmos e harmonias não são do choro!”

 

E por aí vai...

 

Quando eu escuto frases como estas eu fico realmente muito decepcionado porque vejo ali, mais que paixão, mais que conhecimento de causa, mais que música ou qualquer outra coisa, um fanatismo, um fundamentalismo com uma ideia que está longe, mas muito longe de condizer com o DNA do choro.

 

O choro pra quem não sabe – e não tô aqui dando uma de dono da verdade! É só lerem os livros e conhecerem o repertório e as biografias dos principais chorões – começou de originou da ousadia, da transgressão, da vanguarda, do impensável, do inimaginável, da inquietude, mas acima de tudo, da criatividade do músico e do povo brasileiro.

 

Chiquinha Gonzaga e Joaquim Callado misturaram os ritmos europeus da época, com algo que não era nem mesmo considerado música, nem ao menos cultura, muito menos arte. Eles misturaram as valsas, polcas, schottisch e mazurcas da metade do século XIX, com o lundu, com os batuques negros,  com a capoeira dos escravos, com um suingue riquíssimo mas que, na época, era menos que lixo para a sociedade elitista do império brasileiro. Me digam se isso se trata de tradicionalismo ou de transgressão de padrões? O choro nasceu da mistura de ritmos alheios, da mistura de sotaques, de culturas muito, mas muito distintas umas das outras. O choro nasceu com o embrião da música europeia sendo fecundado pelo espermatozoide do brasileiro. Bem assim! Sem pudores cínicos ou hipocrisia. O DNA do choro, como o do povo brasileiro, é constituído pela música e cultura de portugueses, espanhóis, franceses, austríacos, poloneses, alemães e principalmente africanos.

 

Como nosso povo, o choro não tem uma raça apenas, tem o DNA de muitas e por isso, na minha opinião, é tão rico, é tão belo e tão contagiante aos olhos do mundo. Existem regionais de choro no Japão, na França, na Tailândia, nos EUA, na Alemanha, na Itália, ou seja, em todos os cantos do planeta o choro tem um tom agradável e cativante e músicos e espectadores de todos os tipos de formações intelectuais se encantam ao ouvir e ao tocar o choro. Por que será!? Porque ele tem no seu DNA um pouco de cada cultura! Ou seja, o choro É a mistura e É a transgressão e a vanguarda.

 

Agora, por que, mesmo assim, ainda tem as velhas e rabugentas torcidas de nariz pros novos músicos, pra novos estilos e pra novos sotaques do choro? Sinceramente? Não sei!

 

Cordas para bandolim

 

Meu objetivo aqui, como disse, não é atacar ninguém. Eu não sou um “hater”. Pelo contrário! Eu acho que da discussão, da troca de ideias e da experimentação é que as coisas crescem. Então vou deixar aqui algumas linhas de pensamento que eu trago dentro de mim e que guiam a minha vida e a profissão de músico, apenas pra compartilhar com vocês, pra propor uma reflexão acerca dessa polêmica antiga que, pra mim, não ajuda o choro a se perpetuar, não faz prevalecer a tradição, não defende nem protege o tradicional, muito menos possibilita que as novas gerações se interessem pelo choro.

 

Aí vai:

 

- O choro nasceu da fusão de ritmos, gêneros e culturas distintas. O choro é mestiço! Seu DNA é múltiplo!

- O choro é tradição por conta de seus quase 200 anos de existência. Mas tradicional não significa imutável ou fechado numa caixa.

- O choro feito ontem por Jacob e Pixinguinha não era tradicional na sua época. Era extremamente moderno e tão vanguarda que ainda hoje está à frente em muitos aspectos técnicos musicais, a quase todas as outras músicas produzidas atualmente.

- Jacob do bandolim era um experimentador. Ia gravar um disco de bossa nova, tinha o vibraplex, tinha um bandolim de 10 cordas, era exímio fotógrafo e catalogou mais de 5 mil partituras em microfilme, etc, etc, etc...

- Jacob do Bandolim tocava Chopin, Luperce, Pixinguinha, Mozart, Vivaldi, Monti e outros... Mas gostava mesmo era de música brasileira.

- Jacob propôs um estilo todo novo do regional se comportar musicalmente. Ele distribuiu, por exemplo, vozes do piano nas composições do Nazareth, para os violões do regional.

- Jacob fazia o regional gravar as bases dos choros que iria tocar ou gravar futuramente. Aos norte-americanos deu-se a “invenção” dos playalongs no jazz, mas hoje sabe-se que Jacob já fazia isso no Brasil, talvez bem antes dos americanos.

- Pixinguinha quando compôs o Carinhoso aos 20 em 1917, mas deixou na gaveta e só gravou 11 anos mais tarde em 1928. Mesmo assim, a imprensa ignorante da época publicou coisas como “Pixinguinha volta da Europa totalmente influenciado pelo jazz e compõe Carinhoso.” Ou “carinhoso não é música brasileira, é jazz.” Afirmações baseadas na ignorância e no fanatismo, no desconhecimento e na vontade de ser um “hater”, pura e simplesmente!

- Garoto era um chorão fantástico. Tenha visto suas composições para cavaquinho, bandolim, violão de aço, banjo e guitarra havaiana. Mas é considerado o pai da bossa nova por suas harmonias e uma proposta estética que anos depois de sua morte, foi amplamente difundido no Brasil e no mundo. Isso mostra como o choro tem a ver com a bossa nova e como o viés transgressor e moderno está intrinsecamente associado ao choro.

- Radamés Gnattali compôs e arranjou um sem número de músicas de todos os gêneros e estilos, misturando o conjunto regional com a orquestra, quebrando a barreira do popular com o erudito.

- O bandolinista e violonista gaúcho Octávio Dutra foi o primeiro a colocar no palco, um conjunto regional de choro com a orquestra sinfônica em Porto Alegre, em 1926. Radamés só começou essa fusão em 1943 na Radio Nacional, quase 20 anos depois. Porém, foi o que mais produziu e difundiu a ideia.

- O novo de hoje será o tradicional de amanhã.

- O novo que vem hoje não apaga o que foi feito ontem. Só agrega valor e dá mais fôlego ao gênero, seja ele qual for.

- O “sabor” dos tempos de ontem não é mais o mesmo de hoje. Cada época tem suas informações, ritmo, tecnologias e isso tudo influencia na maneira como expressamos a música que fazemos. Não podemos fazer mais a música de Jacob e Pixinguinha. Podemos imitá-la pois não vivemos mais em sua época.

- Tudo que se toca com o bandolim de 10 cordas se toca no de 8. O contrário não! Pode-se tocar no bandolim de 10 cordas um choro tal e qual Jacob tocava, porém, com possibilidades que o Jacob não tinha disponíveis. Isso mostra uma evolução do próprio bandolim assim como Jacob propôs lá atrás quando concebeu o formato clássico de hoje, junto com o luthier Vicente.

- O tempo que se perde resistindo, poderia ser utilizado saboreando a novidade.

- O mundo dá voltas. Logo, a música dá também!

- Vamos amar, compartilhar e ser felizes. Isso que faz com que o choro ou qualquer forma de expressão se perpetue e esteja sempre presente no cotidiano da sociedade. Ninguém quer conviver com gente ranzinza e reclamona! Da mesma maneira, ninguém quer conviver com músicos e uma música galgada em mau-humor e cara amarrada. Música é amor, acima de tudo!

E por último, mas não ainda o último pensamento. É só pra não ficar muito longa a leitura:

- Música é criada do amor que o músico tem por ela. E no final das contas, é isso que chega nas pessoas que ouvem música. Não é virtuosismo, não é velocidade, não é tradicional ou moderno, com improviso ou reto, com 9# ou 3M! É com amor! O que interessa é que o que se toque, se componha, seja feito com amor. Mesmo quem não gostar da música, perceberá, sentirá o amor com o qual ela foi criada ou interpretada e isso fará a mensagem ser entendida e dará sentido ao papel do músico na humanidade.

 

 

>> Assista ao choro Receita de samba de Jacob do Bandolim:

 

 

Sendo assim, depois de ter aberto o meu coração pra ti que está lendo, acho que mais do que nunca, meu intuito, mesmo me expondo desta maneira, é compartilhar o amor com o qual eu faço tudo isso. É mostrar que nós podemos pensar diferente e mesmo assim ser parceiros nessa caminhada chamada vida. Fazendo dela uma jornada mais alegre, bonita e cada vez mais apaixonante.

 

 

 

 

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Este artigo nada tem a ver com mudar a opinião de ninguém, nem de criticar quem pensa de um jeito ou de outro. Apenas o de, através da minha opinião mais sincera, propor uma reflexão para que possamos estar cada vez mais conectados, cada vez mais apaixonados, criativos, inventivos, respeitosos e entendidos dos diferentes meios que temos para expressar nossa emoção através da música e do bandolim. Para que possamos, entendendo as diferentes vertentes estilísticas e filosóficas do choro, ou mais ainda, do ser humano, possamos contribuir de maneira mais leve, mais solta, cada um ao seu estilo, cada um com sua voz, seu sotaque, para um gênero musical ancestral que nunca deixou de ser moderno nem nunca deixará de ter as portas abertas para receber qualquer outra influência.

 

O choro não precisar ter este receio de perder sua originalidade simplesmente porque esta originalidade está justamente em seu DNA mestiço.

 

O choro sempre será tradicional porque seu tradicionalismo é naturalmente moderno e por isso ele se mantem tão atual, quase 200 anos depois de ter nascido.

 

Baita abraço,

 

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Rafael Ferrari

Sobre o autor

Rafael Ferrari é bandolinista, compositor gaúcho. Já tocou ao lado de feras como Hamilton de Holanda e Toninho Horta e há 15 anos dedica-se a estudar, criar conteúdo e ensinar bandolim.

 

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