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Joventino Maciel: o Gigante adormecido

Rafael Ferrari      quarta-feira, 16 de novembro de 2016

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Joventino Maciel Tocando Bandolim

 

Filho de músico, iniciou bem cedo o seu contato com a música. Seu pai, João de Souza Maciel, era acordeonista e muito requisitado nos tradicionais bailes daquela época.

 

Ainda criança, Joventino – e não Juventino, como frequentemente é grafado e chamado por aí – aprendeu a tocar acordeom e passou a acompanhar o pai nos eventos onde este era frequentemente requisitado. Tanto que décadas depois, já ao lado de seu filho Ricardo Maciel, Joventino recebeu a visita de um amigo que trouxe um acordeom e Ricardo presenciou estupefato – segundo seu próprio relato – o pai fazer todas as baixarias e tocar fluentemente o instrumento, mesmo estando muitos anos distante do acordeom! Fato que deixou Ricardo boquiaberto ao ouvir Noites Cariocas e outros choros que o próprio Ricardo diz nunca ter ouvido sendo tocado num acordeom...


Joventino Maciel

Tamanha musicalidade não o permitiram dedicar-se exclusivamente à música. Joventino nasceu dia 05 de março de 1926 na cidade de Campos dos Goytacazes no Rio de Janeiro. Já aos 16 anos, em 19 de novembro de 1941, obteve seu primeiro trabalho de carteira assinada numa fábrica de tecidos. Recebia a quantia de Rs375 (trezentos e setenta e cinco réis) por hora trabalhada.

 

Em seguida, em 06 de novembro de 1942, ingressou numa empresa no ramo de caldeiraria de cobre como caldeireiro, ganhando Rs3.000 (três mil réis) diários.

 

Futuramente, entre os anos de 1947 e 1954, integrou o Regional da Rádio Cultura de Campos, onde teve talvez, seu melhor momento e uma grande evolução musical por estar em convívio com outros grandes músicos, aliados à sua grande musicalidade e sua não menor, paixão pela música.

 

Acordeonista aos 10 anos, cavaquinhista aos 18 e violonista em seguida, atendeu o conselho de Jacob do Bandolim e passou a se dedicar ao bandolim. “Entretanto, em todos estes instrumentos sustentou a mesma maestria, habilidade e capacidade de compor. Compor, sem dúvida, era seu maior dom.” Palavras de seu filho Ricardo Maciel.

Era capaz de atender um pedido do tipo: ”Joventino, compõe um choro no estilo fulano de tal!” 

Não eram necessários mais do que 20 minutos para que o choro estivesse pronto, e as vezes inspirava outro e vinha já uma valsa simplesmente incrível. Mas incrível mesmo é não se trava de qualquer composição! Era um refinamento, uma beleza, uma “alma” única e inconfundível, conta Ricardo.

 

Ainda no cavaquinho, Joventino revelou-se um executante de primeira linha tendo conseguido um brilhante primeiro lugar na final do programa Calouros em Desfile onde Ary Barroso reuniu cavaquinhistas com nota máxima. Nesta ocasião apresentou o seu choro Palhetando, sendo acompanhado pelo Regional de Rogério Guimarães, conjunto tarimbado que, no entanto, se viu surpreendido com o conhecimento de Joventino para conceber inusitadas modulações em sua composição.

 

Depois deste período no rádio, em 01 de julho de 1954, iniciou atividades na Detroit Auto-Peças, na Rua Matriz e Barros no Rio de Janeiro, permanecendo até 25 de fevereiro de 1958 como auxiliar de expedição.

Por último, já em Rio Bonito, trabalhou com o irmão Valter Maciel, em sua oficina atuando como torneiro mecânico e ali permaneceu até sua aposentadoria em 31 de julho de 1975. Mesmo depois de aposentado, Joventino continuou trabalhando com o irmão até 1984. Neste período, enquanto trabalhava no torno, “era capaz de ir compondo choros, bastando apenas sair dali, pegar seu bandolim e simplesmente tocar a nova composição”, conta seu filho Ricardo.

Joventino não conhecia teoria musical e só depois dos 50 anos é que um amigo começou a ensinar-lhe a leitura de partitura. Não chegou a aprender a escrever! Todas as suas composições ficavam “arquivadas” em sua memória, fora as que outros autores tocavam. Nada era inédito para ele. Segundo seu filho Ricardo, toda parte harmônica de suas composições já saiam prontas com a melodia!

 

Na década de 50 através de um amigo, o senhor Antônio Freitas de Oliveira, conheceu Jacob do bandolim. Jacob o visitou algumas vezes em Rio Bonito, sempre chegando cedo e saindo tarde. A música corria solta e sem parar! Conta Ricardo que lembra de seu pai contando que Jacob ao sentar-se, desabotoava a camisa e começava a tocar e só parava já tarde, na hora da despedida.

Nesta época, Joventino e Valter começaram a frequentar a casa de Jacob em Jacarepaguá, onde tinham o privilégio de conhecer, assistir e tocarem no famoso espaço onde Jacob realizou seus aclamados saraus e onde recebia grandes feras da música brasileira e internacional.


Pagão (Joventino Maciel) partitura

Gravação na casa de Jacob em 14 de julho de 1957.

Joventino Maciel no cavaquinho (solo) e Jacob e João Davi nos violões (acompanhamento).



Joventino teve uma dura frustração quando da morte do amigo Jacob, prematuramente, numa quarta-feira 13 de agosto de 1969! Jacob já havia gravado o famoso choro Cadência de autoria de Joventino em seu LP Vibrações, onde escreveu:

 

“Joventino Maciel. Inédito. Admirável o talento deste instrumentista. Compõe com extrema facilidade como provarei em futuras gravações.”

 

Jacob pretendia gravar um disco inteiramente com composições de Joventino. Infelizmente não teve tempo graças ao cigarro que fumava 5 maços diários e o qual o venceu na terceira tentativa. No seu terceiro infarte!

 

No início dos anos 70, Joventino foi classificado como intérprete e compositor, em primeiro lugar no popular programa da TV Tupi, A Grande Chance. Em 29 de outubro de 1984, foi homenageado pelo Museu da Imagem e do Som através de uma programação musical contendo 12 obras de sua autoria, tocadas pelo excelente Regional de José Duarte.

 

Acredita-se que tenha feito cerca de 200 composições. O bandolinista, compositor e professor carioca, Marcílio Lopes está empenhado no trabalho de catalogar as composições de Joventino Maciel, já transcreveu e catalogou quase toda obra conhecida, tendo chegado ao repertório através do violonista  Wellington Krepke Duarte, que era amigo de Joventino e ia sempre à casa dele em Rio Bonito.

 

Desta aproximação, segundo relata Marcílio, foi editando em formato digital, transcrevendo gravações e gravando reminiscências do Ricardo e Valter, filho e irmão de Joventino respectivamente. Se chegou ao número de 139 músicas sendo 98 choros, 1 schottisch e 40 valsas. A obra é tão extensa que parte do material ainda nem tem nome: 18 choros e 12 valsas permanecem nessa condição.

 

Joventino Maciel faleceu no dia 01 de outubro de 1993 aos 67 anos.

 

Este texto cita boa parte do depoimento escrito pelo filho de Joventino, Ricardo Maciel, quando das comemorações dos 87 anos de vida de seu pai em 2013,  compartilhado comigo recentemente como inspiração para este artigo.

 

Na minha opinião, Joventino Maciel foi um grande compositor, que é o que consigo perceber, de longe, sem te-lo conhecido ou visto-o tocar, apenas tendo tocado e ouvido um par de suas composições.

 

Dono de um estilo totalmente próprio, diferente de Jacob ou Luperce, ou Rossini, ou qualquer outro bandolinista brasileiro que eu já tenha escutado. Acredito que uma grande marca em suas composições são as harmonias modulantes e surpreendentes aliadas às posições dos acordes que utilizava abundantemente no bandolim. Essas duas características, em minha opinião, são marca registrada de Joventino Maciel!

 

Seja em choros, valsas, estudos, músicas dançantes ou mais românticas e dolentes, Joventino Maciel conseguia criar uma sonoridade própria para o bandolim, dando ao bandolinista um desafio de interpretação que o coloca lado a lado a mestres como Jacob do Bandolim e Luperce Miranda, Izaías de Almeida ou Joel Nascimento!

 

Como eu disse, nunca o vi ou ouvi tocando bandolim, mas pelas palavras do próprio Jacob, era um músico fenomenal!

 

Ouçam aqui abaixo uma de suas obras primas, gravadas pelo mestre Jacob que como já dito, iria gravar um disco todo com as músicas de Joventino se tivesse vivido mais alguns anos.


Gravação do disco Vibrações (1967) de Jacob do Bandolim

Album Vibrações Jacob do Bandolim

Regional Carioca

Outros trabalhos foram feitos em torno da obra de Joventino Maciel, porém, ainda poucos tamanha a beleza de suas composições e a grandeza de sua musicalidade.

Eu destaco aqui alguns como o disco inteiramente dedicado a ele, lançado pelo Regional Carioca em novembro de 2005.

O disco pode ser comprado neste >>> link <<<

 


A ChoroMusic que é uma editora que nos últimos anos vem lançando livros de partituras de diversos instrumentistas e compositores brasileiros como Jacob, Chiquinha Gonzaga, Gonzagão, Ernesto Nazareth e outros, lançou em 2015 um livro de partituras vendido em formato e-Book - formato digital - com 22 músicas de Joventino Maciel.

O songbook digital pode ser comprado neste >>> link <<<


Casa do Choro Acervo Joventino Maciel

 

No acervo do site Casa do Choro do Rio de Janeiro, tem algumas partituras disponibilizadas gratuitamente, da obra do Joventino. Algumas delas das mais conhecidas do seu repertório, inclusive o famoso Cadência!

Tu podes baixar as partituras clicando neste >>> link <<<

 

No site Discos do Brasil idealizado pela jornalista e musicóloga Maria Luiza Kfouri dá pra se pesquisar todos os discos que tem músicas de Joventino Maciel gravados.

 

Clique na foto pra ver no site...

 

Gravações de músicas de Joventino Maciel

 

Eu particularmente, considero Joventino Maciel um baita dum compositor e um baita compositor para o bandolim!

 

Suas músicas são realmente algo único e não tivemos ainda uma grande divulgação de sua obra mas vemos aí, a importância de um artista do nível de Jacob do Bandolim, totalmente comprometido com o registro e em exaltar o que de melhor havia na música brasileira de sua época e da geração anterior a ele, grande pesquisador, intérprete impecável e acima de tudo um artista muito sério com sua arte, com seu bandolim. Por conta desta força toda, hoje conhecemos um gênio da qualidade de Joventino Maciel e podemos explorar sua obra ainda boa parte inédita ou pouco tocada, vindo a descobrir as belezas escondias nos acordes do seu bandolim...

 

Cito aqui as palavras do próprio Marcílio Lopes sobre a pesquisa e o trabalho em torno das músicas do Joventino:

 

 

"A obra do Juventino Maciel é maravilhosa, de uma criatividade impressionante. Fica até difícil estabelecer uma preferência: o “Cadência” dá uma ideia, mas não espelha o universo sonoro deste mestre. As valsas: difícil escolher uma, ou terminar de tocar sem aparecer aquele sorriso de satisfação e orgulho no nosso roto. É notável a riqueza das modulações e a inventividade na criação dos temas. Há um delicado processo de elaboração temática e unidade extremamente orgânica entre as partes.

Para nós companheiros do instrumento, a obra se desenvolve com um “bandolinismo” dos mais precisos: as coisas são pensadas e realizadas no instrumento de tal forma que tudo é muito confortável de tocar."

 

 

Faço aqui um parêntese, para deixar meu reconhecimento, admiração e votos de sucesso sempre aos que tocam o grandioso barco da Casa do Choro, Escola Portátil, Acari Records em todos os seus braços pois o trabalhos destes artistas, pesquisadores, professores e acima de tudo, apaixonados pela nossa música brasileira, nos possibilitam irmos além, conhecermos e aprendermos cada vez mais sobre nossa música e nossos músicos.

 

Vida eterna a Luciana Rabello, Maurício Carrilho, Marcílio Lopes, Jayme Vignoli e tantos outros mestres que construíram este monumento e contribuem lindamente para a arte e a cultura brasileiros.

 

Salve o grande Joventino Maciel e seu bandolim genial!

 

PS: Um baita abraço ao amigo Everton Souza, que me ajudou neste artigo a deixar o som rolando pra vocês!!

 

Baita abraço,


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Rafael Ferrari

Sobre o autor

Rafael Ferrari é bandolinista, compositor gaúcho. Já tocou ao lado de feras como Hamilton de Holanda e Toninho Horta e há 15 anos dedica-se a estudar, criar conteúdo e ensinar bandolim.

 

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O Blog TOCANDO BANDOLIM foi desenvolvido por mim, Rafael Ferrari, com o intuito de levar conteúdo sobre o bandolim brasileiro, ao maior número de pessoas possíveis. O bandolim sempre foi carente de conteúdos, métodos e principalmente, material didático e este blog, assim como os outros canais nas redes sociais e projetos que eu desenvolvo, tem o intuito de tornar o bandolim acessível a todo mundo, e desmistificar muito do que, por falta de material didático elaboado, acaba afastando muita gente do aprendizado do instrumente.


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