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Bandolim de 8 ou de 10 cordas!?!?

Rafael Ferrari      terça-feira, 18 de outubro de 2016

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Tocando Bandolim

 

O bandolim no Brasil tem uma tradição secular, tendo como primeiro grande expoente o pernambucano Luperce Miranda.

Tocando num bandolim alemão afinado um tom acima da afinação natural do bandolim que usamos aqui (F#, B, E, A) o que fez, por décadas, diversos bandolinistas se confundirem quando tentavam aprender seu repertório, uma vez que a digitação era transposta um tom abaixo do que estava soando! :/   

   

O fato é que Luperce gravou com praticamente todos os discos com diversos cantores, instrumentistas da sua época, dos anos 20 em diante. Luperce chegou a acompanhar a famosa Carmem Miranda. Luperce vem de família musical, começou a tocar bem cedo e sabia tocar vários instrumentos, inclusive o piano. Deixou cerca de 500 composições, apesar de ser analfabeto e não saber ler nem escrever.

Luperce Miranda


Logo depois dele, na década de 30, com mais ou menos 15 anos, surgiu aquele que seria o idealizador da forma de tocar o bandolim no Brasil e do próprio estilo de construção, formato do bandolim brasileiro que usamos até hoje: Jacob Pick Bittencourt, o Jacob do Bandolim.

 

Jacob idealizou junto com o luthier Vicente, um bandolim que lembra a guitarra portuguesa em seu formato. Exceto pela mão do bandolim e as tarraxas, que são completamente diferentes. O bandolim que o Jacob idealizou tinha o “headstock fechado” ou seja, é como a mão das guitarras elétricas, diferentemente de alguns bandolins europeus que tem o “headstock aberto”, como o violão e o cavaquinho brasileiro!


Headstock Fechado

Mão da guitarra Fender Stratocaster


Headstock Aberto

Mão do violão 7 cordas Regis Bonilha Luthier


Jacob do Bandolim morreu em 1969 e até o ano 2000, seu bandolim – em formato e em estilo de tocar – permaneceu influenciando absolutamente todos os bandolinistas brasileiros.

 

No ano de 2001 o bandolinista Hamilton de Holanda gravou seu primeiro disco tocando um bandolim com 10 cordas, ou seja, 5 pares. O disco que leva seu nome, apresenta arranjos contemporâneos de temas de Tom Jobim, Baden Powell, Egberto Gismonti, Hermeto Paschoal além de tocar o choro Vibrações de Jacob, repetindo a mesma interpretação feita por Jacob no seu último disco homônimo de 1968. Hamilton inclui no disco um arranjo fantástico do choro Carinhoso de Pixinguinha, onde mostra o bandolim solo pela primeira vez de uma maneira mais completa, introduzindo de vez essa possibilidade para o bandolim brasileiro.

 

Depois deste disco, Hamilton seguiu tocando por todos os cantos, começou uma carreira internacional, ganhou diversos prêmios dentro e fora do Brasil, gravou músicas de Pixinguinha com grandes feras do jazz, tocou com feras de diversos gêneros do mundo todo como Richard Galliano, Cesária Évora, Bela Fleck, John Paul Jones, Chick Corea, Wynton Marsalis, Stefano Bollani e outros. Levou o bandolim brasileiro não só a um status de instrumento pop novamente mundo a fora, como vem influenciando toda uma nova geração de bandolinistas que vem começando a aprender, muitos deles, já no bandolim de 10 cordas.

 

O fato é que hoje, final de 2016, o bandolim de 10 cordas é uma realidade. E disso vem muitos comentários e opiniões as vezes um pouco maldosas, as vezes ingênuas, as vezes de pessoas inseguras e na maioria das vezes de pessoas simplesmente! O Ser humano tem a forte tendência – e isso já foi demonstrado ao longo da história em diversas situações reais, é retratado em filmes, em livros e em estudos – de não conseguir assimilar bem as novidades ou aquilo que ainda não consegue atribuir um rótulo. Também existe, por outro lado, o medo de que quando surge uma novidade, o passado seja apagado!

 

O fato é que, em se falando do bandolim brasileiro, hoje não podemos negar que ele é um instrumento com características dúbias e disso, na minha opinião, é que vem toda a incerteza e insegurança que criam mitos e lendas em torno de sua existência!

 

Se olharmos o bandolim de 8 cordas e o bandolim de 10 cordas hoje, eles são exatamente iguais, diferindo apenas em tamanho e no número de cordas.

 

Se olharmos pelo lado musical, mais técnico, há diferenças significativas entre os dois instrumentos uma vez que o par a mais de cordas do bandolim de 10 (a nota dó uma oitava abaixo do dó central do piano) gera inúmeras possibilidades harmônicas, melódicas e estéticas, em relação ao bandolim de 8 e a maneira como ele foi utilizado até hoje na música brasileira. Desta segunda observação é que surgem, na minha opinião, esses motivos para o instrumento ser rebatido em alguns ambientes e ainda hoje, haver resistência por parte dos bandolinistas que não optaram por tocar o bandolim de 10.

 

O que eu penso? E posso estar enganado, apenas estou externando um sentimento pessoal, ok! O que eu penso é que a existência de uma coisa não mata nem apaga a outra. Isso acontece com o choro por exemplo! Esse discurso, desculpem-me os puristas, de que só existe “um choro”, que “o choro autêntico é este ou aquele...” – pra resumir – isso é um pensamento que vai em desencontro com a própria história do choro que começou da fusão de gêneros nunca antes tocados e misturados, e se transformou na maior expressão da arte brasileira!!

 

Ou seja, o choro nunca vai morrer. Novos formatos e linguagens, sotaques só fortalecem o gênero e ampliam o alcance pois assim como alguns não irão gostar da novidade, outros também nem sequer gostam do choro. Nunca vamos, em nenhuma área, agradar a unanimidade! Por isso, quanto mais formatos, estilos, sotaques, formas um gênero musical tiver, mais moderno e tradicional ao mesmo tempo ele será, mais abrangente ele será, mais público ele terá, mais interessados em produzir e criar dentro daquela linguagem existirão e consequentemente mais vivo e presente esse gênero estará.

 

Com o bandolim acontece o mesmo. O bandolim de 10 cordas não veio para apagar a história do bandolim de 8. Pensem! Sem o legado de Luperce e Jacob – como ícones dentre tantos outros de antes e de hoje – nada do que existe hoje seria criado! Então não tem como uma coisa ser nociva à outra. Mesmo SE algum dia, houverem apenas bandolinistas empunhando um bandolim de 10 cordas – o que acredito estar muito, mas muito longe de acontecer – o bandolim será um só e seu legado estará vivo.

 

Apenas o instrumento terá um par de cordas a mais! Quem faz a música é o músico não o instrumento. Quem escreve a história são os bandolinistas não seus bandolins! Isso está ilustrado naquela passagem que o próprio Jacob conta sobre um músico de São Paulo ter ido à sua casa no Rio de Janeiro pedir seu bandolim emprestado para uma gravação para conseguir ter em seu disco “o som de Jacob”. Resultado que não aconteceu e o próprio Jacob fala por que: por que o som que faz é o músico, não o instrumento. E eu concordo!

 

Então, longe aqui de comparar para dizer o que é melhor ou pior, simplesmente por que isso não existe! Existe apenas a vontade de um músico de falar através de um ou outro instrumento. Pretendo mostrar algumas diferenças estruturais entre o bandolim de 8 e o de 10 cordas, até para tentarmos juntos identificarmos quais são as melhorias e ajustes que ainda precisam ser feitos no 10 cordas para que ele se aproxime mais de um modelo e sonoridades definitivos, uma vez que, em minha opinião, ainda não chegamos lá!

 

Para isso eu comparei um modelo clássico de bandolim, que como vocês podem ver, já foi utilizado por grandes mestres da nossa música como Déo Rian, Ronaldo do Bandolim e também por Jorge Cardoso, Danilo Brito, Hamilton de Holanda e tantos outros, que é o bandolim feito pelo Ao Bandolim de Ouro, a famosa loja carioca e renomada fábrica dos instrumentos Do Souto, dos anos 50 até os 90.

 

Essas fotos do Sr. Hélio e do luthier Silvestre foram enviadas pelo amigo de longa data, músico de Brasília, Rauf Souza. Um amante da música brasileira, do samba, do choro e do cavaquinho. Obrigado Rauf, em nome de todos!!



Hleio Do Souto

 

 

 

 

 

Sr. Hélio Do Souto, que fundou a loja Ao Bandolim de Ouro em 1929



Luthier Silvestre e Hélio na oficina

Hélio e Silvestre na oficina do Bandolim de Ouro

Luthier Silvestre Delamare Domingos

Luthier Silvestre Delamare Domingos


Déo Rian

Ronaldo do Bandolim

Danilo Brito

Déo Rian
Ronaldo do Bandolim

Jorger Cardoso com Alencar 7 Cordas

Hamilton de Holanda ainda menino


As fotos e as medidas que estou mostrando aqui, são de um bandolim Do Souto feito pelo Luthier Silvestre em 1991. Provavelmente um dos últimos já que ele morreu em 1992! Este bandolim foi de Rossini Ferreira e as fotos me foram enviadas pelo bandolinista Duduta (que é também luthier) de Campina Grande na Paraíba, e pelo seu filho Waguinho Duduta a quem agradeço bastante!! Obrigado meus amigos!

 

Eu, apesar de já ter tocado em inúmeros bandolins Do Souto, nunca tive um! :/

 

Vou mostrar algumas medidas deste bandolim aqui e depois compararemos com um bandolim de 10 cordas!

 

 

Comprimento da corda vibrante (da pestana, ou do traste zero até o cavalete) = 35cm


Profundidade na parte da culatra/cordal = 6,03cm / Profundidado no encaixe do braço = 5,02cm


Comprimento total do instrumento = 62cm

Circunferência da boca = 6cm


Largura da escala na pestana/traste zero = 3cm

Largura da escala sobre a 12ª casa = 4cm

 

Agora vou utilizar meu bandolim de 10 cordas feito pelo luthier Regis Bonilha que atualmente tem sua oficina em Jacareí a 80km de São Paulo e que é o cara, na minha opinião, que vem fazendo as melhores modificações e propondo os melhores ajustes no formato do bandolim de 10 cordas, atingindo um resultado muito bom em termos de sonoridade, equilíbrio e também em acabamento, design e tecnologia que ele utiliza para a fabricação do bandolim. É o luthier que eu indico a todos que querem ter um bandolim, seja de 8 ou de 10 cordas, realmente de qualidade e com um som incrível.

 

Comprimento da corda vibrante (da pestana, ou do traste zero até o cavalete) = 35cm


Profundidade na parte da culatra/cordal = 7,5cm / Profundidado no encaixe do braço = 7,00cm


Comprimento total do instrumento = 67cm

Circunferência da boca = 6cm



Largura da escala na pestana/traste zero = 4,8cm

Largura da escala sobre a 12ª casa = 5,6cm


Como pudemos ver, o bandolim  de 10 cordas tem o corpo um pouco mais, mais profundidade entre o tampo e o fundo, mas a escala ainda é do mesmo tamanho que a do bandolim de 8, o que na minha opinião e na do próprio Régis, é um problema uma vez que a corda Dó do 5º par, tem uma bitola entre .053 e .056 (polegadas), o que é uma espessura muito grande para o tamanho de corda vibrante que o instrumento tem. Ou seja, o som grave desta corda, pelo tamanho que ela possui, não contempla o verdadeiro potencial que poderia dar se o instrumento fosse um pouco maior.

 

Por isso talvez, a bandola é o instrumento que sempre teve a corda com a nota Dó, porém sem a primeira corda do bandolim, ou seja: A, D, G, C, da primeira pra 4ª (do agudo pro grave). Ficando o bandolim com o E, A, D, G do agudo pro grave. As mesmas afinações do violino e da viola de orquestra.

 

Notando estas diferenças, o fato de eu achar que este modelo que usamos hoje ainda não é o modelo definitivo do bandolim de 10 cordas, e que um não vai apagar a história do outro, quero falar um pouco das possibilidades que o “Déizão” abre em relação ao 8 cordas.

 

No bandolim de 10 temos mais possibilidades de criar acordes e harmonias mais completas que no de 8, uma vez que a afinação em quintas, proporciona na corda mais grave, sete notas musicais a mais – do Dó da corda solta, até o F# na 6ª casa – ampliando consideravelmente a extensão do bandolim.

 

Isso abriu possibilidades maiores pra se criar arranjos e composições pro bandolim solo. A técnica de palheta também evoluiu, uma vez que novos elementos foram acrescentados para se tocar o Déizão. E também possibilidades mais interessantes de acompanhamento, tanto para música instrumental quanto para acompanhar a voz dos cantores, se mostraram no bandolim de 10 cordas.

 

 

 

 

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UMA CURIOSIDADE: O bandolinista baianao Armandinho Macêdo conta que na década de 80 mandou fazer um bandolim de 10 cordas pela primeira vez no Brasil, mas o instrumento não ficou bom e ele não levou adiante. Porém, Armandinho sempre tocou a Guitarrinha Baiana com 5 cordas, sendo o Dó (mesma nota do bandolim de 10) a nota mais grave!

Já entre 2001 e 2002, depois de ter ido morar na França e ficando cerca de 2 anos sozinho na Europa, Hamilton de Holanda mandou fazer o se primeiro bandolim de 10 cordas, começando a revolucionar desde então, a técnica e as possibilidades estéticas do bandolim brasileiro.

 

 

Mesmo assim, com algumas possibilidades a mais que o de 8, podemos tocar os mesmos choros, tradicionais, com interpretação totalmente “jacobiana”, podemos fazer todos os ornamentos, todas as inflexões que o bandolim de 8 faz, sem tirar nem pôr, e criar interpretações e arranjos nos moldes do dito “tradicional” pelos chorões mais conservadores.

 

Fica aqui uma palhinha pra vocês verem e ouvirem de perto o bandolim de 10 cordas e tirarem suas próprias conclusões a respeito da sonoridade do instrumento e dos aspectos comentados neste artigo.

 

 

Fica a critério do músico escolher se lhe agrada o som do 10 cordas, se essas possibilidades falam com sua personalidade e desejo musical ou não. Se sim, que bom! Agora temos um instrumento que oferece algumas possibilidades a mais para os bandolinistas. Se não, tudo bem também! O bandolim é cativante, apaixonante, encantador como as sereias, hipnotiza, é brilhante, tem um som vivo e sempre estará presente na música brasileira como um ícone! O número de cordas não importa. O que importa é a genialidade e a criatividade do bandolinista brasileiro, que está sempre disposto a inventar, a desvendar, a recriar e manter vivas a tradição e o que há de melhor da nossa alma tupiniquim, sem deixar de olhar à frente e estar presente no futuro, de bandolim na mão.

 

Baita abraço,

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Rafael Ferrari

Sobre o autor

Rafael Ferrari é bandolinista, compositor gaúcho. Já tocou ao lado de feras como Hamilton de Holanda e Toninho Horta e há 15 anos dedica-se a estudar, criar conteúdo e ensinar bandolim.

 

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